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Faz
de conta
Me
faz criança,
faz ‘bom-bocado’, ‘brigadeiros’
e uma festa só para mim.
Conta uma fábula,
uma estória de Reino encantado,
de tempo sem inflação,
de um mundo sem televisão.
Depois me põe na cama,
me cobre com um lençol bordado
e um beijo na testa;
Como no mundo encantado
do pleno emprego,
da terra em que soldado
só aparecia, em trajes de gala,
nos desfiles anuais.
E como no tempo do faz-de-conta,
conta que não faz muito tempo,
diz que lembra, que foi ontem,
que polícia era cortês,
que criança não morria de fome,
e me desperta com um sorriso
e um sabiá, despreocupado,
cantando num jardim que
esqueceram bem debaixo de nossa janela.
E, novamente, me põe pra dormir,
encostado no teu seio,
sentindo o pulsar cadenciado
do peito que recusou
endurecer com as injustiças,
crescer com o pão dos ricos;
para que eu possa acreditar
que o homem tem solução;
que despertar
não é um pesadelo que, só
quando eu voltar a ser criança,
terá
passado.
Calos Barros

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